Como funciona o doutorado?

Agora que o casamento já passou, posso me dedicar 150% ao doutorado, pois em alguns meses tenho minhas provas de campo, que são o segundo passo importante do doutorado. Quando falei sobre a defesa da proposta de tese do Thiago (que agora é um ABD), várias me perguntaram como funciona o PhD aqui. Como nunca expliquei esse processo, vou aproveitar e entrar em detalhes hoje. Então vamos lá...(senta que o post é longo)

Para ter uma idéia do cotidiano do doutorando, veja o clipe abaixo:


Um doutorado pode durar em torno de 5-8 anos, dependendo da área. Para economia (Thiago), a média são 5 anos. Para ciências políticas (euzinha) a média é de 6 anos. Já para biologia (uma amiga minha), a média é de 7 anos. Depende muito se a área for teórica, se precisa de experimentos em laboratório, pesquisa de campo, etc. (por exemplo, tenho uma amiga que faz doutorado em história russa...ela está na Russia há dois anos estudando arquivos históricos, coletando dados e documentos.)

Em geral, os doutorados exigem 2-3 anos de matéria curricular. Se você tem um mestrado, você normalmente consegue eliminar um ano de sala de aula, mas não consegue fugir inteiramente. Ah, e na maioria dos casos, só mestrados americanos são reconhecidos (por exemplo, o Thiago, que fez um mestrado excelente de economia na PUC-Rio, não pôde transferir crédito algum).

Depois desses 2-3 anos de matéria, a gente faz as temidas provas de campo, também conhecidas como exames de qualificação (em inglês: comps, quals, prelims, etc). Essas provas testam nosso conhecimento de TODA a matéria estudada nos últimos 2-3 anos. A idéia é se tornar um expert da literatura e teoria do seu campo.
Quando você faz as provas e passa, você recebe o título de Mestre da sua área (por exemplo, se passar nas minhas provas em setembro, ganharei um Master's in Political Science). Aí sim você está liberado das aulas e começa a trabalhar exclusivamente na sua pesquisa.

Durante o 3o ano do doutorado, após as provas de campo, a gente tenta ter uma idéia (remotamente) brilhante que possa ser transformada em tese. Essa idéia tem que ser inovadora, empurrando as fronteiras do conhecimento da nossa área (total piegas, né?!) Não pode ter sido publicada anteriormente e precisa contribuir para o desenvolvimento acadêmico do campo.

Fase do desespero procurando "A" idéia.
Quando você finalmente tem uma idéia, você escreve uma proposta de tese, apresenta à sua banca e reza para a banca aprovar, para você ganhar o título de Mestre de Filosofia da sua área. O Thiago hoje é Master of Philosophy in Economics. Mais importante, isso significa que você pode seguir em frente com sua pesquisa e você é (informalmente) chamado de ABD ("All But Dissertation" ou carinhosamente "All But Done").

Aí que o bicho pega: defendendo a proposta de tese, o próximo passo é realmente pesquisar e escrever a bendita tese! Esse processo pode demorar entre 2-4 anos...depende se você precisa fazer pesquisa de campo (demora muito!), se você está fazendo experimentos em laboratório, se conseguiu $$$ para implementar sua pesquisa, etc. Uma amiga minha, que está fazendo um PhD em física, por exemplo, passou um bom tempo sem poder trabalhar na tese porque os dados não podiam ser coletados, pois ela estuda alguma coisa sobre partículas, Big Bang e etc, e o aparelho (o CERN) que reproduz as colisões de partículas, simulando o Big Bang, ficou um tempo em manutenção...ou seja, as vezes aparecem imprevistos na pesquisa.

Finalmente, depois de (perder todos os cabelos, se isolar do mundo, querer desistir inúmeras vezes e) escrever a (maldita!) tese, a gente tem que defendê-la para a banca, rezando, torcendo, fazendo macumbinha para a banca aprovar a tese, e finalmente, depois de inúmeros anos de estudo, receber o tão esperado título de PhD.

Divertido, né?

Quem chegou aqui embaixo e está se perguntando por que diachos a gente se submete a isso, provavelmente  está pensando: "Ah, pelo menos depois disso tudo, o salário deve aumentar pra caramba!!!"
Melhor maneira de ganhar $$$ no meio acadêmico: ser técnico de time de futebol americano!
ERRADO!!! Na pesquisa mais recente feita pela The Economist em dezembro do ano passado, indivíduos com PhD recebem, na média, um salário apenas 3% maior do que aqueles que "somente" têm mestrado. Então por que a gente não faz só o mestrado e para por aí?!

Porque no fundo TODOS NÓS SOMOS NERDS! (e nossos olhinhos brilham quando falamos sobre nossa pesquisa...) 

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